Do Salão Oval ao documento enviado ao governo americano, o candidato do PL acenou com concessões em etanol, Mercosul e Pix. Enquanto isso, o campo paga a conta do tarifaço e depende cada vez mais da China.
A uma semana do segundo turno, a relação de Flávio Bolsonaro (PL) com Donald Trump virou um dos pontos mais explorados da campanha. Adversários falam em entreguismo, termo usado para quem se dispõe a ceder interesses nacionais a uma potência estrangeira. A acusação colou em boa parte do eleitorado: em pesquisa Datafolha de julho, 52% disseram acreditar que o tarifaço americano tem como objetivo ajudar a campanha de Flávio.
O paradoxo é que o setor mais exposto a esse alinhamento é um dos pilares do bolsonarismo: o agronegócio.
Entreguismo de Flávio a Trump – Da Casa Branca ao tarifaço
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A história começa em 2025. O primeiro tarifaço de Trump, de 50%, veio em meio à atuação de Eduardo Bolsonaro para que os EUA pressionassem ministros do STF no processo contra Jair Bolsonaro. Na época, Flávio e Eduardo condicionaram o fim das tarifas à anistia do pai. Eduardo chegou a afirmar que “a liberdade vale mais do que a economia”.
Em novembro de 2025, os EUA revogaram a sobretaxa de 40% sobre produtos agrícolas brasileiros, mas o alívio durou pouco:
- Em 26 de maio de 2026, Flávio foi recebido por Trump na Casa Branca.
- Em junho, Washington propôs uma nova tarifa contra o Brasil, citando desmatamento ilegal e supostas práticas desleais em pagamentos eletrônicos.
- Um dia depois do anúncio, Trump elogiou Flávio nas redes como “um jovem inteligente que ama muito o seu país”.
Em julho, Flávio pediu tempo aos americanos. Num documento de 86 páginas enviado ao Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), propôs suspender as tarifas e abrir uma negociação com prazo inicial de 180 dias. O argumento era que a eleição de outubro redefiniria o cenário político brasileiro em cerca de 90 dias.
Na audiência pública em Washington, ele defendeu o adiamento e disse que a tarifa fortaleceria o governo Lula. Segundo a Secom, do governo federal, dos 34 brasileiros inscritos na audiência, ele foi o único que não se posicionou contra as medidas e preferiu sugerir o adiamento. A tarifa de 25% foi confirmada em 15 de julho e passou a valer no dia 22.
O que Flávio ofereceu a Washington
O documento enviado ao USTR é o ponto mais sensível para o campo, porque não se limita a pedir adiamento: acena com concessões.
- Etanol: o texto propõe um acordo de “tarifa zero por tarifa zero” para etanol e açúcar. Na prática, isso eliminaria a tarifa brasileira sobre o etanol americano. Hoje o Brasil cobra 18% sobre o etanol dos EUA, que aplicam 12,5% ao produto brasileiro, e o governo brasileiro descartou concessões nesse item.
- Mercosul: Flávio defendeu que o Brasil procure se libertar das “amarras do Mercosul” para negociar diretamente com os americanos, no mesmo caminho de Javier Milei na Argentina.
- Desmatamento: o documento sugere abrir uma mesa de negociação sobre os seis temas da investigação americana, incluindo etanol e desmatamento. Nessa investigação, os EUA alegam que o uso de áreas desmatadas para a agricultura dá ao produtor brasileiro uma vantagem injusta sobre o americano.
- Pix e cartões: o texto também propõe reduzir a carga tributária das empresas de cartão de crédito. Além disso, assume o compromisso de não integrar o Pix a sistemas de pagamento internacionais ligados a países fora do bloco ocidental.
Por que isso ameaça o agro
Etanol: o precedente já existe
Não seria a primeira vez:
- 2019: o governo Jair Bolsonaro ampliou de 600 milhões para 750 milhões de litros anuais a cota de etanol americano isenta de tarifa, sem contrapartidas para o Brasil, o que Trump comemorou.
- 2020: o então chanceler Ernesto Araújo pressionou pela renovação da isenção como forma de ajudar a reeleição de Trump. Produtores do Nordeste e do Centro-Sul se posicionaram contra.
O etanol americano é feito de milho, e a Única alertou na época que a entrada sem tarifa pressionava o mercado brasileiro. Um acordo de tarifa zero tornaria permanente o que naquela época era temporário.
O tarifaço já está na conta
Na sobretaxa de 25%, carnes, café e suco de laranja ficaram isentos, mas etanol, açúcar e pescados seguem taxados. Só no agro, a perda de exportações pode chegar a US$ 5,8 bilhões; somando a agroindústria, a Amcham estima impacto acima de US$ 11 bilhões.
No primeiro semestre de 2026, as exportações brasileiras para os EUA caíram 13%. A fatia americana nas vendas externas do país recuou de 12,1% para 9,4%.
Mercosul: o acordo com a Europa mal começou
O acordo entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor de forma provisória em 1º de maio de 2026, depois de 26 anos de negociação, com cotas para carnes, arroz, milho, açúcar e etanol. A UE já responde por cerca de 15% das receitas externas do agro, atrás apenas da China.
Como esse acordo foi fechado em bloco, a proposta de afrouxar o Mercosul para negociar sozinho com Washington joga incerteza sobre um mercado que o campo acabou de conquistar.
China: o maior cliente está do outro lado da disputa
Em 2025, o agro exportou US$ 169,2 bilhões. Os EUA compraram US$ 11,4 bilhões, apenas 6,7% do total, enquanto a China respondeu por 34% do faturamento externo do setor.
Os americanos, além de clientes menores, são concorrentes diretos. Após a cúpula entre Trump e Xi Jinping em Pequim, a China se comprometeu a comprar ao menos US$ 17 bilhões por ano em produtos agrícolas dos EUA entre 2026 e 2028. Cada ampliação dessas compras significa mais concorrência para o exportador brasileiro no mesmo cliente.
Mesmo assim, Flávio tem se apresentado como peça da estratégia americana contra Pequim. Em março, na CPAC, conferência conservadora nos EUA, disse que o Brasil seria a solução para os americanos reduzirem a dependência da China em minerais críticos e terras raras.
O agro conhece esse risco. No governo Jair Bolsonaro, um tuíte de Eduardo acusando a China de espionagem por meio do 5G provocou repúdio da embaixada chinesa e preocupação entre lideranças do setor.
Até aliados reconhecem a equação. A senadora Tereza Cristina, ex-ministra da Agricultura de Jair Bolsonaro, afirmou que, se eleito, Flávio terá de equilibrar as relações com China e EUA. Ela lembrou que a China é a maior compradora do agro e que o Brasil disputa esse mercado com os americanos.
O que diz Flávio
Flávio rejeita a acusação:
- Afirma ter pedido expressamente a Trump, ao vice JD Vance e ao secretário Marco Rubio que não taxassem as empresas brasileiras.
- Na audiência do USTR, pediu aos americanos: “não imponham tarifas ao Brasil”.
- Quando a tarifa entrou em vigor, culpou Lula, comparando a situação a um pênalti cavado pelo presidente. Disse ter plena convicção de que vai reverter as tarifas se for eleito.
- Segundo Eduardo, o irmão se comprometeu a negociar um acordo de livre-comércio com os EUA.
Seus aliados também lembram que a proposta de tarifa zero inclui o açúcar, antiga demanda brasileira nas negociações sobre o etanol americano. Flávio diz que terá uma relação pragmática com a China, sem alinhamento automático a Pequim ou a Washington. Ele também recebeu o apoio formal da Frente Parlamentar da Agropecuária no segundo turno, com compromissos de crédito rural e incentivo aos biocombustíveis.
Na opinião pública, a culpa também é dividida: 35% dos eleitores apontam Lula como principal responsável pelo tarifaço.
O que está em jogo no dia 25
Para o produtor, a questão não é gostar ou não de Trump. É saber quem vai sentar à mesa quando os interesses do agro americano e do brasileiro colidirem, como no etanol, no açúcar e na soja vendida à China.
Segundo o colunista Rudolfo Lago, do Correio da Manhã, até lideranças do agro que tendem a votar em Flávio avaliaram que o tema não deveria ter sido politizado na audiência em Washington.
A dúvida que fica para o eleitor do campo é se um presidente que chega ao cargo já tendo oferecido concessões aos americanos terá força para dizer não a Washington quando o interesse do agro brasileiro exigir.
Fontes do artigo:
- Datafolha: 52% veem tarifaço como apoio à campanha de Flávio (O Povo)
- Flávio diz a Trump que tarifaço daria vitória política a Lula (Bem Paraná)
- Trump elogia adversário de Lula em meio a novas tarifas (Sábado/Lusa)
- Flávio diz a EUA querer “se libertar” do Mercosul (Jornal de Brasília/Folhapress)
- Aos EUA, Flávio critica Mercosul e defende empresas de cartões (Metrópoles)
- Nos EUA, Flávio pede adiamento do tarifaço até eleições (SBT News)
- Exportações do setor agrícola podem perder US$ 5,8 bilhões com tarifaço (Band)
- MDIC: 23,1% das exportações aos EUA sujeitas a novas tarifas (O Povo)
- Bolsonaro decide prorrogar isenção do etanol que beneficia os EUA (eixos, 2020)
- Acordo Mercosul-UE começa a valer de maneira provisória (Poder360)
- China e Estados Unidos: de quem o agro brasileiro depende mais? (Agrolink)
- Acordo entre EUA e China sustenta soja em Chicago (Safras)
- Tereza Cristina: Flávio terá de equilibrar relação com China e EUA (DGABC)
- Flávio: Brasil é solução mineral para EUA não depender da China (Rádio Bandeirantes)
- Tarifas entram em vigor; Flávio e PT trocam acusações (Observador)
- Frente Parlamentar da Agropecuária apoia Flávio no 2º turno (Canal Rural)




